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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Uma dose de mentiras, por favor.


Pelo que imaginava, era fevereiro. Ou abril. Ou agosto. Ou outubro. Não importava agora. Houve um tempo em que o próprio tempo era importante, agora, agora nada era assim mais. Nada era importante. Deixou de contar depois de tudo. E assim, passavam-se os dias, vinham meses, e ele, continuava. Não sabia bem o porquê de continuar. Na verdade, ele só respirava. Continuar é algo maior, mais forte. E força ele deixou de ter. Deixou de lutar por falta de motivos, cansaço mesmo sabe? Depois do que aconteceu...

Acordava cedo, ia pro trabalho, colocava uma máscara pra aguentar o dia, fingia estar feliz em um ambiente cheio de sujeira, ia pro almoço, chegava em casa, fumava um cigarro barato, uma vodca qualquer, que fizesse um estrago ou melhor, tirasse da lucidez, daquela mansa lucidez de quem já não tem nada e doía. De quem perdeu tudo, e tinha a culpa nas mãos. Era a única coisa que ficara.

Estava saturado, entende? Porque chegava um dia que não dava mais. Continuava com aqueles pesadelos com ela, lembrando daqueles... Olhos. Os olhos dela ainda o puxavam pra dentro, ainda eram vivos nele, aquele mar escuro - fundo e extremamente assustador. Eram como dois inimigos, mesmo sem armas, que o sufocavam e muito pior que qualquer outro inimigo imaginável. O pior da perda é saber que nunca mais terá. O pior é saber... Como se perdeu, e ele sabia. Culpado, chorava, admitia, implorava, soluçava. Ele sabia.

Ele a tinha enlouquecido com suas palavras tolas, quando pra ela era um tudo, ela boba, idiota, apaixonada, acreditou, pobrezinha. Acreditou nas imensas declarações que ele fazia, nas flores que ele mandava, nos chocolates que ele lhe dava. Ela, coitadinha, não sabia que as declarações eram falsas, que as flores estavam murchas e os chocolates eram completamente amargos. Nada além. E ela, logo ela que preferia o meio-amargo...

Um dia, aquele dia, em fevereiro, abril, agosto ou outubro, ela descobriu todas as mentiras. Ela ficou desorientada, se quebrou inteira, não conseguia entender. E no momento em que pra ela, todas as verdades viraram mentiras, pra ele, as mentiras se tornaram verdades. Tarde. Havia uma hora, tarde demais ele chegou ao apartamento dela. Ela simplesmente se apagou. E ele, completamente perdido, desvairado, quebrado viu o que tinha feito. Tarde demais... O tempo, maldito tempo. Ela não esperou, ela se machucou. E o pior das dores ele tinha causado. Ele lembrava agora. Depois de tudo, lembrava e só. Completamente... só.

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