quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Não é?


Levantou-se, saiu.

Depois de tantos desaforos coisa e tal, era melhor ir embora. Não adiantava tentar demonstrar sentimento àquele que não conseguia compreendê-lo. Entendia que depois de tudo escutado e tudo dito não tinha mais nada a ser sentido.

Ela esperaria se recuperar, como uma tentativa sôfrega de se livrar de uma droga, um vicio imenso. Sonharia ainda, depois de tudo, conseguir se entender, coisa meio idiota a se fazer quando se tem um coração quebrado, partido; ela iria continuar modificando vidas, como sempre o fez, mesmo calada, no seu canto. Porém, ela tinha aquele poder, e onde tocava, mudava. Mudaria, de novo, ela sabia, todos sabiam. Não era pra ser diferente, não é?

E quando menos esperasse iriam se encontrar em uma primavera ou outono qualquer, debaixo de um sol escaldante, que faz os sentimentos incendiarem e virarem cinzas, ou então, debaixo de uma garoa fininha, dessas que ferem como pequenas lâminas que machucam a pele, e claro, cruzando olhares se distantes; se perto, iriam trocar um cumprimento qualquer, sem mais delongas. Afinal, depois de tantas coisas, o que acontecia já não tinha mais força pra prosseguir. Não havia mais nada de nada. Nada dela, nada dele. Nada dos dois.

Ela iria, depois de tudo, pra casa, novamente sem compreender, choraria o mar, como uma boba, patética, inútil. Os olhos dela, novamente conheceriam o vermelho freqüente, aquele que sempre a habitava, sem pedir permissão. Sentada, parada. Parada, como sempre.

Rendida.

Doía, é claro.

Mas me diz, não era pra ser diferente, não é?

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Todos desolados e pobres enfim.


E em dias de chuva como estes ficam mais fortes os choros e gritos, e tão presente a ausência deste tudo!

Porque quando se quer muito algo, não importa como, o que deveria ser pouco para os demais é tanto pra que tem a necessidade...

Conforma-se com o que tem, deixa de buscar, porque parece que a mão não alcança o que só os olhos conseguem ver, desiste. Ela, ela mesma, que não sabia bem como agir, que não entendia e fingia não se importar, meu Deus, era a que mais sentia. Estava no ar, sabe? Nos olhos, na boca, no cheiro, no gosto, no corpo inteiro. Estava na alma, naquela alma cheia de dramas e coisa e tal. Naquele ar de terra de molhada, de vento seco, dia nublado. Céu sem cor. Eram naqueles dias que ela se encontrava, e nas cobertas, ela pensava, patética. Vestia-se, fantasiava-se, tentava persuadir, enganar, manipular. Ela se cobria inteira da personagem que criara. Proteção.

Abria os olhos e pensava. Lia, escrevia, fazia qualquer coisa para que parasse tudo isso, para que de alguma forma se encontrasse. Ela nunca entenderia. Ela nunca entendia, e isso é a angústia: que ninguém nunca se encontra. As pessoas sempre se enganam nesse quesito. É inegável admito, eu, como observadora desse circo digo, o amor vem como um palhaço, totalmente maquiado, doce no começo. Depois do show de belas sensações, se retira do palco e revela-se comum, nada mais é que um desolado, triste e velho, cansado, e ao tirar a maquiagem, pobrezinho, deita e sonha. Doloroso são aqueles cansados e mortos que continuam com doces ilusões. Frágeis aqueles, perdidos e desvairados, que sonham um dia encontrar-se em corpos alheios, quando nunca, sequer, encontraram-se dentro de si.

sábado, 25 de setembro de 2010

Com brilho, sem dor.


Acontecia o seguinte. Ela brilhava. Não como esses brilhos falsos, baratos, de vidro ao sol. Ela brilhava como diamante. Daqueles que ofuscam, que cegam. Que enlouquecem quem vê, fazendo brotar a louca vontade de ter aquele brilho pra si. Ela brilhava, entende? Não você não entende. Quando chegava a noite, e o escuro dominava os corações atordoados de dores e desamores, naquela maldita escuridão, ela surgia. E então iluminava. Ela olhava, e a lua, junto com ela, criava luz. Iluminava também, como neon. Toda neon. Ela era diferente dos outros que se ligavam ao dia, aquele sol que queima a pele, que machuca. Ela, ela não doía, ela toda era um punhado de tudo e nada, sabe? E se ligava na noite. E brilhava.

Com o vento vindo em seus cabelos, ela mesma sentia o cheiro deles exalarem, frésia, disse. Ou pensara, não sabe. Perdia os sentidos quando brilhava. Ela respirava, com sofreguidão, cansaço talvez. Ninguém nunca sabia. Mal sabiam seu nome, aqueles da rua, nunca sequer perguntaram qual era o nome dela. Talvez eles não vissem o brilho. Ou talvez, vissem, e com medo de ficarem cegos com tanta luz, se afastavam. Na verdade, provavelmente, eles fechavam os olhos, se negavam a ver. Simplesmente ignoravam, não queriam observar. Ela não, ela observava todos eles.

Toda noite ela ia ao mesmo lugar, naquele escondido do mundo. Era um lugar dentro dela, compreende? Escuta, você tem que entender. Ela, que não tinha dor, que não tinha asas, que não tinha sonhos, brilhava! E de dentro dela, no meio da luz, expurgava o que era segredo. Expurgava dela-e-pra-ela o que incomodava, ou o que simplesmente não tinha mais condição de ficar dentro dela. Porque tem certas coisas que precisam ser escondidas, pensara. É necessário esconder o que se sente, porque quando falares não vão entender. Me escuta, a voz dizia. Te entrega, repetia.

Todas as noites, no brilho intenso ela sentia o mesmo sussurrar, e tinha medo, pela primeira vez. Se entregar é complicado quando a entrega é única e solitária. Porque quando não há ninguém, é mais perigoso. Conviver com os próprios fantasmas é arriscado. E se entregar a isso, bem... Ela nunca entenderia o que alucinava mais, o brilho da solidão ou o queimar do sentimento. Talvez nenhum. Talvez os dois.

Talvez. Talvez o caminho seja esse afinal. É desse jeito, pensou. No fim, de qualquer forma, todo mundo, exatamente todo mundo, morre sozinho ou fica sozinho. Sem pessimismo-dramático agora, estamos em uma realidade óbvia, sentiu. Se entregar agora si seria melhor, era evitar o tempo perdido, experiências fatigadas, e mais, dores. Em outros, porque ela não sentia. Ou não queria, não se sabe. Nunca se soube.

De qualquer forma, o que importava na realidade substancial era que, por mais que se queira, por mais que se busque, e o que ela acreditava que todos faziam, constantemente e diariamente, não se encontra. Ela observava, com aquele olhar seco, caído, todos aqueles brutos e abençoados que buscavam achar em alguém o que nunca seria encontrado. Tinha pena. Nem todos entendem a entrega, pensara. Porque tem certos rios que secam também. E alguns, que nunca nasceram.

Um dia, decidiu. No ar, no ar era melhor, com o vento vindo, ela respirou. Invadiu-a.

Suspirou, exatamente assim.

Se entregou, de uma só vez.

E brilhava.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Aquele.

Ele chegou em casa, tirou os sapatos, as meias, como sempre. Queria se livrar do cansaço, daquilo que apertava o andar. Caminhar sempre desgasta quando se anda sem rumo. Sem sentindo. Depois de um dia cansativo, de uma rotina de trabalho de oito-horas-seguidas, sem parar, era só chegar em casa, tomar um banho. Era um evento importante. Não podia ser assim, sujo. Tão sujo! Água gelada, cai no corpo, tenta limpar, tirar aquele suor imundo, de gente que luta todo dia em vão. Luta pra porra nenhuma, na verdade.

Sai do banho. Veste uma roupa, não uma qualquer. Tinha que ser importante, pelo menos isso, pelo menos algo. Algo na vida, algo depois de tudo. Com rapidez, pega o cigarro, o isqueiro e um cinzeiro da mesa. Acende. Deixa queimar, as cinzas aparecendo, aprecia. Já reparou como cigarro queima? Arde na boca, ás vezes. É um beijo, daqueles beijos que te sugam, que tira o ar. Viciante, ele pensara. Em companhia aquele beijo quente do cigarro, tinha o wisk. Desses, baratos, pra atordoar, fazer esquecer, tirar da lembrança aquilo tudo. Porque quando se quer esquecer algo, ou melhor, alguém vale tudo, vale qualquer coisa. Vale até quebrar-se em mil pedaços pra depois, diferente de todo mundo, não juntar os cacos. O segredo é pisar em cima, ferir o pé, deixar sangrar. Sangrar tudo que tem pra sangrar, compreende? Deixar cortar. Deixar.

Bem, naquela gaveta era o que ele procurava tanto. Era pegar a chave, que sempre andara com ele na carteira, do lado daquela foto pequena e antiga, e pronto. Seria perfeito. O plano perfeito. Plano esse de que nunca mais planejara nada, de que, de tão perdido, mal pensava. Abriu a gaveta, de-va-gar, pegou a arma. Tinha que ser essencial fazer disso especial. Ou tentar. Nada, nunca fora especial, nem no começo, nem no decorrer. O fim deveria. Ao menos isso; colocou a bala. E um último pensamento surgiu, aquele. Porque depois de tudo, quando não se tem expectativas de mais nada, quando se perde a fé, quando se morre aos poucos, e dolorosamente, morrer de uma vez só não é nada. Ou tudo, quando se tem alguém. Ele era sozinho. Logo, não precisava se explicar, pensara. Deus entenderia. E foi. Um barulho. Aquele que dói. Na alma, no corpo. Pra quem ouve, assim como eu. Mas como foi tão rápido e efetivo, não se sente mais, um estouro, pra ele. Sem dor. Sem mais dor. Aquele barulho. Aquele. Aquele que rasgou o apartamento em dois. Aquele que o rasgou em dois, me levando junto.



Exatamente, aquele.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ausência.


Porque a gente, depois de um tempo passa a duvidar. Duvidar do que pregam por aí sobre romance, entende? Depois de tudo, de tanto desamor, não da sua parte claro, mas dos outros, esses outros por aí, você começa a duvidar. Duvidar de filmes, de livros e todos os finais felizes que se tem notícia. Começa tudo bem, doce. Tão doce... Depois, é um gosto amargo, daqueles que arrepiam, e a vontade que dá é de jogar tudo pra fora. Além da ferida que nunca cessa, comecei a pensar no que poderia estar errado. Acredite, acho que o amor não é nada além de uma invenção ridícula e perturbada. Não tem sentido. Não serve pra nada. Apenas pra nos causar essa dor, nos enlouquecer, ou na verdade, me enlouquecer. Ou talvez, o que eu acredito com maior veemência, enlouquecer aqueles que não são correspondidos. Acreditar. É preciso acreditar. Mas diz isso pra quem há muito tempo perdeu a fé nisso. Nesse sentimento. Diz.

Sabe, eu não posso mais continuar nisso, é preciso arquitetar um plano de fuga qualquer, algum plano para me livrar desse imenso teatro que estamos encenando. Porque eu não consigo continuar fingindo. Fingindo que está tudo bem, que estamos bem. Eu vou te dizer, eu me perdi sim. Porque eu não quero mais me importar, entende? Criei armadura, dessas fortes, de ferro. Daquelas que pra ultrapassar, só quebrando. E aí que tá! Não vai quebrar. Para de tentar, não vai. Eu não quero, e não vou deixar que quebre. Sabe por quê? Porque nessa história toda perdida-e-mal-acabada de que minha vida é feita, eu não tenho a menor vontade de buscar quem eu era, quem sou, e como me sinto. Não me interessa mais. Porque pra isso eu teria que ultrapassar toda essa instabilidade, minha, tua. Nossa. E mais, teria de investir pesado pra resgatar do passado o que me afeta no presente e me destroça no futuro.

E isso, eu não vou fazer. Não quero fazer. Não vou, não, não vou.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ela.


Ela era extremamente sarcástica. Não tinha medos, sabe? É do tipo que não se encontra por aí, e que todo mundo admira-negativamente-ou-positivamente, não sei, mas que ninguém compreende. Tinha olhos negros. Daqueles escuros, que guardam algo que bem, não se decifra. Tão escuros que na imensidão daquela escuridão, a gente se perdia. Não dava pra ter qualquer luz. Não se via nada. Era compulsivamente-individualista, porque ela tinha algo, algo assim que mostrava que antes fora diferente... Era um enigma. Porque quando se acostuma ao normal, o incomum assusta. E era nítido, ela era perdida. Mas quando queria, se encontrava. Ou não. Algo aconteceu, entende, alguma coisa, e ela mudou. Ela nunca, nunca abria a boca para falar, e nunca falava. Talvez fosse por falta do que dizer, ou, porque se começasse não terminaria. A questão é que ela simplesmente era diferente de todo o resto. Não pertencia a esse lugar, ela não deveria nem estar aqui. Porque era superior. Porque sabia de tudo que acontecia ao seu redor, ela sempre, sempre sabia. Na sua presença toda perturbada de quem ignora agora qualquer tipo de fulgor, se afastavam por não saber como agir perante ao frio, quanto todo mundo só conhece o quente. E de tão frio, acredite, ela queimava.

E, no seu silêncio en-sur-de-ce-dor todo o resto, o resto todo, se calava também.

Porque nem sempre.


Porque tem dias que parece que está tudo nublado. E eu começo a lembrar... E penso se poderíamos ter tido um desfecho diferente. Talvez poderíamos, em nosso livro, não ter rasgado a página final, assim, tão bruscamente. Foi leviano. E doloroso. Não acha? Talvez poderíamos ter nos importado mais, ter nos amado mais, sabe? Aliás, nos amamos? Você amou? Na verdade, são certas coisas as quais eu procuro não pensar, porém vezenquando atormenta. Atormenta, e machuca como um soco no peito. Aqueles que deixam a gente sem ar, e por um súbito momento, você para de respirar. Mas depois, como em um suspiro, volta o ar. Outro dia eu fico esperando, na janela do quarto, alguém bater no portão, pra eu abrir e ser você. E é nesses dias que eu espero mais. Uma espera inútil, insaciável. Mas, como mágica, acontece pra mim. Então, você entra, e me toma inteira, e aí, traz um novo livro, inteiramente em branco, com capa dura e canetas coloridas. Dá pra escrever agora, diferente de tudo, você diz.

E a gente escreve. Sem medo de errar, devagar, pra letra sair bonita.

Tá tudo bem. Tudo muito bem.

Não vai acontecer, eu sei.