Follow by Email

sábado, 25 de setembro de 2010

Com brilho, sem dor.


Acontecia o seguinte. Ela brilhava. Não como esses brilhos falsos, baratos, de vidro ao sol. Ela brilhava como diamante. Daqueles que ofuscam, que cegam. Que enlouquecem quem vê, fazendo brotar a louca vontade de ter aquele brilho pra si. Ela brilhava, entende? Não você não entende. Quando chegava a noite, e o escuro dominava os corações atordoados de dores e desamores, naquela maldita escuridão, ela surgia. E então iluminava. Ela olhava, e a lua, junto com ela, criava luz. Iluminava também, como neon. Toda neon. Ela era diferente dos outros que se ligavam ao dia, aquele sol que queima a pele, que machuca. Ela, ela não doía, ela toda era um punhado de tudo e nada, sabe? E se ligava na noite. E brilhava.

Com o vento vindo em seus cabelos, ela mesma sentia o cheiro deles exalarem, frésia, disse. Ou pensara, não sabe. Perdia os sentidos quando brilhava. Ela respirava, com sofreguidão, cansaço talvez. Ninguém nunca sabia. Mal sabiam seu nome, aqueles da rua, nunca sequer perguntaram qual era o nome dela. Talvez eles não vissem o brilho. Ou talvez, vissem, e com medo de ficarem cegos com tanta luz, se afastavam. Na verdade, provavelmente, eles fechavam os olhos, se negavam a ver. Simplesmente ignoravam, não queriam observar. Ela não, ela observava todos eles.

Toda noite ela ia ao mesmo lugar, naquele escondido do mundo. Era um lugar dentro dela, compreende? Escuta, você tem que entender. Ela, que não tinha dor, que não tinha asas, que não tinha sonhos, brilhava! E de dentro dela, no meio da luz, expurgava o que era segredo. Expurgava dela-e-pra-ela o que incomodava, ou o que simplesmente não tinha mais condição de ficar dentro dela. Porque tem certas coisas que precisam ser escondidas, pensara. É necessário esconder o que se sente, porque quando falares não vão entender. Me escuta, a voz dizia. Te entrega, repetia.

Todas as noites, no brilho intenso ela sentia o mesmo sussurrar, e tinha medo, pela primeira vez. Se entregar é complicado quando a entrega é única e solitária. Porque quando não há ninguém, é mais perigoso. Conviver com os próprios fantasmas é arriscado. E se entregar a isso, bem... Ela nunca entenderia o que alucinava mais, o brilho da solidão ou o queimar do sentimento. Talvez nenhum. Talvez os dois.

Talvez. Talvez o caminho seja esse afinal. É desse jeito, pensou. No fim, de qualquer forma, todo mundo, exatamente todo mundo, morre sozinho ou fica sozinho. Sem pessimismo-dramático agora, estamos em uma realidade óbvia, sentiu. Se entregar agora si seria melhor, era evitar o tempo perdido, experiências fatigadas, e mais, dores. Em outros, porque ela não sentia. Ou não queria, não se sabe. Nunca se soube.

De qualquer forma, o que importava na realidade substancial era que, por mais que se queira, por mais que se busque, e o que ela acreditava que todos faziam, constantemente e diariamente, não se encontra. Ela observava, com aquele olhar seco, caído, todos aqueles brutos e abençoados que buscavam achar em alguém o que nunca seria encontrado. Tinha pena. Nem todos entendem a entrega, pensara. Porque tem certos rios que secam também. E alguns, que nunca nasceram.

Um dia, decidiu. No ar, no ar era melhor, com o vento vindo, ela respirou. Invadiu-a.

Suspirou, exatamente assim.

Se entregou, de uma só vez.

E brilhava.

4 comentários:

  1. Que texto gostoso! Parece um desabafo, aliás, ao ler, senti como se estivesse descarregando todos os meus problemas pro mundo num lugar doce e tranquilo, como se a brisa carregasse todas as energias negativas coexistentes em meus pensamentos.
    Lindo texto!
    Vi seu comentario no meu blog e imediatamente vim correspondê-la. Espero que você possa sempre desfrutar de minhas postagens, pois certamente visitarei seu blog frequentemente.

    Um beijo, M!

    ResponderExcluir
  2. Adorei seus textos, e vou te seguir :D
    Beijos :*

    ResponderExcluir
  3. Vício. É a única palavra que descreve o que sinto ao ler seus textos. Eu viciei, assim, do nada. Tudo se torna vício quando alguém corresponde a sua essêcia.
    Acho que não preciso dizer mais nada...

    Se puder dar uma passada:http://pansofiadistopica.blogspot.com/

    ResponderExcluir