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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Aquele.

Ele chegou em casa, tirou os sapatos, as meias, como sempre. Queria se livrar do cansaço, daquilo que apertava o andar. Caminhar sempre desgasta quando se anda sem rumo. Sem sentindo. Depois de um dia cansativo, de uma rotina de trabalho de oito-horas-seguidas, sem parar, era só chegar em casa, tomar um banho. Era um evento importante. Não podia ser assim, sujo. Tão sujo! Água gelada, cai no corpo, tenta limpar, tirar aquele suor imundo, de gente que luta todo dia em vão. Luta pra porra nenhuma, na verdade.

Sai do banho. Veste uma roupa, não uma qualquer. Tinha que ser importante, pelo menos isso, pelo menos algo. Algo na vida, algo depois de tudo. Com rapidez, pega o cigarro, o isqueiro e um cinzeiro da mesa. Acende. Deixa queimar, as cinzas aparecendo, aprecia. Já reparou como cigarro queima? Arde na boca, ás vezes. É um beijo, daqueles beijos que te sugam, que tira o ar. Viciante, ele pensara. Em companhia aquele beijo quente do cigarro, tinha o wisk. Desses, baratos, pra atordoar, fazer esquecer, tirar da lembrança aquilo tudo. Porque quando se quer esquecer algo, ou melhor, alguém vale tudo, vale qualquer coisa. Vale até quebrar-se em mil pedaços pra depois, diferente de todo mundo, não juntar os cacos. O segredo é pisar em cima, ferir o pé, deixar sangrar. Sangrar tudo que tem pra sangrar, compreende? Deixar cortar. Deixar.

Bem, naquela gaveta era o que ele procurava tanto. Era pegar a chave, que sempre andara com ele na carteira, do lado daquela foto pequena e antiga, e pronto. Seria perfeito. O plano perfeito. Plano esse de que nunca mais planejara nada, de que, de tão perdido, mal pensava. Abriu a gaveta, de-va-gar, pegou a arma. Tinha que ser essencial fazer disso especial. Ou tentar. Nada, nunca fora especial, nem no começo, nem no decorrer. O fim deveria. Ao menos isso; colocou a bala. E um último pensamento surgiu, aquele. Porque depois de tudo, quando não se tem expectativas de mais nada, quando se perde a fé, quando se morre aos poucos, e dolorosamente, morrer de uma vez só não é nada. Ou tudo, quando se tem alguém. Ele era sozinho. Logo, não precisava se explicar, pensara. Deus entenderia. E foi. Um barulho. Aquele que dói. Na alma, no corpo. Pra quem ouve, assim como eu. Mas como foi tão rápido e efetivo, não se sente mais, um estouro, pra ele. Sem dor. Sem mais dor. Aquele barulho. Aquele. Aquele que rasgou o apartamento em dois. Aquele que o rasgou em dois, me levando junto.



Exatamente, aquele.

Um comentário:

  1. Por isso fumo, pelo beijo azedo do cigarro.
    Lindo, adorei seu blog, estou seguindo, passa lá no meu!

    http://borboletacarnivora.blogspot.com/

    Beijo, beijo

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